Nos últimos anos, a forma como equilibramos o trabalho e a vida pessoal passou por uma transformação significativa, refletindo as mudanças culturais, tecnológicas e sociais que se foram instalando nas nossas vidas. Evoluímos de uma mentalidade de work-life balance para modelos mais fluidos, como é o caso do work-life integration e mais recentemente para o work-life blended.
Os modelos de trabalho foram-se alterando de forma significativa, mas, ainda assim as organizações estão novamente a impor um regresso ao escritório, tornando-se este num dos maiores desafios enfrentados pelas empresas e colaboradores atualmente.
O work-life blended é nos dias de hoje, o modelo principal nas organizações porque vai para além da integração, propondo uma fusão mais profunda entre o trabalho e a vida pessoal enquanto algo natural e contínuo. Surge como a nova resposta aos modelos de trabalho até então estabelecidos e sugere uma mudança de mentalidade significativa: as pessoas procuram um equilíbrio entre as suas necessidades pessoais e profissionais de forma orgânica e adaptável, aproveitando ao máximo o tempo e os recursos disponíveis.
Apesar deste ganho significativo no mundo laboral, muitas empresas estão a pressionar os colaboradores a retornarem aos escritórios, em parte devido à ideia de que o trabalho presencial melhora a colaboração, a cultura organizacional e a produtividade.
Este retorno é visto como uma forma de restaurar o que foi perdido com o trabalho remoto, mas, no entanto, as opiniões dos colaboradores não se manifestam da mesma maneira. Enquanto as organizações argumentam que o trabalho presencial é essencial para a inovação e o espírito de equipa, muitos trabalhadores consideram esta exigência um retrocesso, especialmente aqueles que já integraram a flexibilidade do trabalho remoto nas suas vidas.
O grande problema que esta mudança de paradigma traz consigo é o conflito entre o modelo de work-life blended com a pressão do retorno ao escritório, pois a flexibilidade que ele proporciona é justamente a grande vantagem do trabalho remoto/híbrido.
“É importante ouvirmos quais são as necessidades dos trabalhadores, sendo que 50% não se sente confortável com o retorno ao modelo presencial total. A grande maioria quer continuar com algum grau de trabalho remoto ou híbrido e é necessário que as chefias tenham isso em consideração se quiserem continuar a fazer crescer a sua organização”, disse David Ferreira, Country Head Portugal da Talentis.
Para além da perda de flexibilidade, outro ponto de tensão relevante está relacionado justamente com a produtividade e a performance. Algumas empresas defendem que a produtividade aumentou com o trabalho remoto, mas a pressão para voltar ao escritório é justificada pela crença de que a presença física melhora o desempenho das equipas. No entanto, muitos estudos mostram que, para uma grande parte da força de trabalho, o trabalho remoto ou híbrido não afeta a produtividade e pode, na verdade, aumentá-la devido ao melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
“A resistência ao regresso ao escritório está a crescer, especialmente entre os mais jovens com 61% dos trabalhadores da geração millennial e 55% da geração Z a preferirem trabalhar remotamente ou num modelo híbrido, sendo que uma parte significativa desses trabalhadores não está disposta a retornar ao escritório em tempo integral” diz David.
Algumas empresas estão a tentar equilibrar estas reivindicações ao adotarem modelos híbridos, permitindo aos colaboradores usufruir de alguma flexibilidade, mas com a oportunidade de interagirem pessoalmente quando necessário. Outras organizações optaram por retornar totalmente ao trabalho presencial, especialmente em setores que dependem da interação física constante e que estão a enfrentar resistência por parte dos seus funcionários, que valorizam cada vez mais, a autonomia e a flexibilidade adquiridas.
Organizações que consigam adotar uma abordagem flexível e híbrida, respeitando as necessidades e preferências dos seus colaboradores, estarão mais bem posicionadas para prosperar, promovendo um ambiente de trabalho saudável e atraente para os talentos do futuro. A chave para o sucesso será, portanto, a adaptação constante às novas realidades e a criação de modelos de trabalho que integrem tanto a necessidade de colaboração física quanto a flexibilidade exigida pelas novas gerações.
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